sexta-feira, 15 de junho de 2012


Jipe Willys: urbano e radical
Você acha que jipes sofrem na trilha? Então dê uma olhada no que os colombianos fazem com seus velhos Willys
ISAAC HERNÁNDEZ HERRERO
Isaac Hernándes
Jipe Willis é usado ao extremo em Yipao colombiano
Quando eu era jovem, na Espanha, sonhava em atravessar a América Latina e ver pessoalmente lugares que já havia sentido tão perto do coração, através dos textos de Julio Cortázar, Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa, Gabriel García Márquez e tantos outros que libertaram minha imaginação e me levaram a lugares fantásticos. Conforme fiquei mais velho, nunca pensei que teria a oportunidade de visitar a Colômbia e a Macondo de Cem Anos de Solidão (Macondo realmente não existe, mas diz-se que a cidade caribenha de Aracataca inspirou Márquez). Recebo então um convite da Chrysler para visitar Bogotá, e a região de café Quindío, para descobrir a Colômbia: as paisagens, o povo e seu amor pela música, pela boa comida, e pelo Jeep.
Hoje, o Jeep é um item de luxo na Colômbia. Afinal, paga 35% de Imposto de Importação, mais 20% por outros tributos. Um Wrangler começa em 112.900 pesos colombianos, cerca de US$ 47.500. O que equivale a um monte de café. Apenas 800Jeeps são vendidos aqui a cada ano, 120 deles Wrangler. Mas, a partir de 1945, dezenas de milhares de Willys, antecessor do Wrangler, chegaram ao país como parte de um programa de ajuda dos EUA. A maior parte deles era modelo agrícola, com guinchos, enxadas e cabos para puxar máquinas e bombas d’água. Eles deixaram sua marca, e muitos continuam cuidadosamente mantidos.
Foi então que Juan Valdés trocou sua mula para um Jeep, ou Yip, como são conhecidos na Colômbia, embora Doyle Dane Bernbach, a agência de publicidade por trás da campanha do Café de Colômbia, preferiria que você não soubesse disso. E Yipao é como os colombianos chamam um “Jeep carregado”, como em Yip “cargao”. E eles são carregados... Ainda que o veículo seja habilitado para transportar meia tonelada, chegam a carregar 2 toneladas, uma arte nascida da necessidade.
Isaac Hernández Herrero
Robusto e de entre-eixos curto, o jipe se adaptou muito bem aos caminhos difíceis e às curvas fechadas dos Andes
O Yipao está associado à cultura andina a ponto de ser considerado uma unidade de medida, como um Yipao de bananas (40 a 45 cachos) ou um Yipao de laranjas (20 a 25 sacas). Os Yipaos também são contratados para transportar famílias e seus pertences (em uma viagem), e no transporte público.
Por que Jeep? A Colômbia não tinha muitas estradas pavimentadas nos anos 40 e 50. Ainda hoje, há apenas 16.500 km de estradas, dos quais 60% pavimentadas. Em contraste, o Equador tem 43 mil km. A Toyota FJ40 é uma alternativa ao Willysnessas montanhas traiçoeiras, mas seu entre-eixos mais longo é uma desvantagem quando se trata de fazer curvas apertadas nos Andes. Algumas das FJ40 foram alongadas para circular como ônibus.
Isaac Hernández Herrero
Veículo de trabalho em momento de lazer: os desfiles de jipes são uma festa promovida em várias cidades colombianas
Entre colecionadores colombianos, o Willys original, o CJ-2A de teto baixo, é o mais procurado. A Colômbia também importou muitos CJ-3, conhecido como “tapa alta” (teto alto), mas as pessoas gostam mais da versão baixa, de acordo com José Guillermo Jaramillo, restaurador profissional que vive e trabalha em Calarcá. Os funcionários de sua oficina são capazes de fazer cada parte de um Jeep com um martelo e chapas de aço. “O mais difícil é o painel de instrumentos”, diz Jaramillo, enquanto puxa um de uma pilha de metal. É também a parte necessária para poder chamar o trabalho de restauro, porque é onde fica o número de série; o restante pode ser feito em torno dele. Compra-se um velho Willys na Colômbia a partir de US$ 5 mil.
Armenia foi a primeira cidade a promover um desfile para homenagear o Yipao. Os carros carregados são ainda mais impressionantes quando você percebe que não é só uma exibição, mas parte integrante da vida cotidiana das pessoas na região de cultivo de café de Quindío. Hoje, há desfiles de Yipao em cerca de 30 cidades e vilarejos; Armenia e Calarcá são as mais populares.
“Colômbia é Paixão”, diz a campanha pelo turismo no país. Paixão pela boa comida, por boas risadas, pela música (especialmente se for tocada alto e você cantar junto ainda mais alto), para a dança e para o Yipao. Na verdade, o Clube Willys Colômbia organizou, em fevereiro de 2006, o maior desfile Willys, com 364 veículos, ganhando um Guinness World Record, que ainda mantém. E a Yipao foi oficialmente declarada “Bem de Interesse Cultural Imaterial do Quindío”.
Isaac Hernández Herrero
Uma arte nascida da necessidade: previstos para carregar 500 quilos, os Yipaos chegam a transportar 2 toneladas
Há 86 Jeeps registrados no desfile, e muitas outras adesões extra-oficiais, como oJeep Wrangler Unlimited em que estávamos rodando. A maioria deles estava lá para apreciar a festa, mas alguns competiam nas três categorias que reproduzem os usos tradicionais do Jeep: Trasteo ou Coroteo, referente às mudanças de famílias; Agrícola; e Transporte Público.
No uso normal, um Yipao pode transportar até 16 pessoas: 3 na frente, 4 no banco de trás, e 8 a 10 de pé na traseira e penduradas nas bordas. Os motoristas de Jeepreúnem-se em praças até formar a lotação e levar os passageiros para seu destino. Na competição, os Jeeps ficam tão lotados que os árbitros exigem que todos estejam sentados, para evitar acidentes. “Todo mundo tem de estar com o dedão do pé no chão do carro”, conta um participante.
Na categoria Agrícola, os juízes consideram não só o peso da carga, mas ainda a disposição do cacau, café, iúca, laranja, banana ou outros produtos da região. Quando uma família muda de casa, é comum alugar um Jeep para levar seus pertences em uma só carga, incluindo não só os bens materiais, mas também filhos e animais de estimação, junto com a imagem emoldurada de Cristo, como a cereja no topo. É uma verdadeira arte equilibrar tudo isso, o que pode levar várias horas.
Isaac Hernández Herrero
Um velho jipe Willys é vendido por a partir de US$ 5 mil na Colômbia; Até 16 pessoas podem ser transportadas em um Jipao,
nos bancos, caçamba ou penduradas nas laterais
O que você pode fazer com um Jeep além de carregá-lo com uma variedade incrível de coisas? Truques, naturalmente. Quando as rodas dianteiras estão erguidas no ar, e as traseiras movem o carro, a manobra é chamada de Pique. Neste caso, o motorista pode bloquear uma das rodas e fazer o carro dançar, girando como se perseguisse as pessoas ao redor. E, algumas vezes, o motorista sai do carro enquanto ele se move em duas rodas no meio da multidão. O condutor mal pode ver à frente, e os carros giram a centímetros das pessoas. É a versão colombiana da corrida de touros.
O desfile me fez pensar na Espanha, em outras maneiras além das touradas. As pessoas assistindo aos coroteos com imagens do Cristo em cima lembraram-me as procissões da Semana Santa em Sevilha. O ritmo lento da caravana, com frangos pendurados nas laterais dos carros, e as pessoas compartilhando músicas, histórias, risos e aguardente, me levou a pensar na peregrinação a El Rocío, também em Andaluzia.
Isaac Hernández Herrero
Manobras radicais na cordilheira: no pique, o motorista (ou acróbata?) faz o jipe dançar sobre duas rodas no meio da multidão
De fato, na Colômbia me senti em casa, como na Espanha de minha infância, mas com novos ritmos (salsa, vallenato, bambuco...) e novos sabores de frutas tropicais (lulo, maracujá, guanábana...). A doce paixão do povo me alimentou mais do que a comida fantástica.
As 11 pessoas que dirigem a Chrysler na Colômbia têm em média 28 anos, e decisão de fazer as coisas direito. Apesar dos desafios e dos altos impostos, as vendas de Jeep crescem no país. Será pela tração 4x4 para superar os solavancos na economia? Eu diria que as pessoas é que têm tração integral, embora às vezes elas podem optar por fazer um pique e dançar em duas rodas.

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